Conto - O Guarda-sol Azul
WARBUTON, Holly; Evening Sketch 28/12/17; Dispinível em: https://holly-warbs.tumblr.com/post/169034173820/evening-sketch-281217
O GUARDA-SOL AZUL
Na madrugada de segunda-feira, debaixo de um guarda-sol azul, extingue-se a chama do nono. Sr Rodrigo, olhos vidrados. Mente vazia, coração preguiçoso e sem descanso. Já era o nono da noite... Mas chegara a segunda! Então era apenas o terceiro do dia. Olhos secos e incrédulos, lia sobre bambus, oriente, vietnam não lembrava mais... Fechou o livro, recolheu-o debaixo do braço, abriu o pequeno portão e desceu. Em sua cozinha havia uma porta para a varanda, e outra para seu quarto. Sua cozinha assim o era e no mais também era sua sala. Agora em frente ao relógio, 12 minutos adiantado, identificou 01:22 - Ele sabia que a hora de dormir já havia passado, mas lembrou-se, de imediato, que isso já não importava tanto. A iluminação aconchegante de um laranja modesto tomava as paredes da cozinha, as ferramentas do dia-a-dia e os aparelhos já eram todos apenas funcionais, mas isso não os faziam um caos estético, de galinhas coloridas e estampadas a torto e demais símbolos de cozinha indefinidamente. Tudo era modesto, de uma simplicidade inconscientemente notável. Ao lado da mesinha da televisão antiga estava sua pequena árvore, já de três natais. Ainda era Novembro, mas no primeiro momento que o comércio dispunha-se o Sr Rodrigo começava os preparativos, era um mês de modestos enfeites e comemorações solitárias. Que tipo de pessoas são as que enfeitam suas casas em novembro? Decidiu não pensar mais em nada, apenas começar outro dia, já estava cansado o suficiente para dormir, achava. Pos-se no quarto, a cama já acordava duas semanas no mesmo arranjo de roupas, puxou o lençol, sentou-se na cama, tirou os chinelos que grudavam nos dedos levemente, ergue as duas pernas para deitar-se sobre o lençol. Ficou. Agora o coração preguiçoso já não mais o era, nem covarde poderia se-lo mais, tudo ficava claro e a mente acalentava o coração com diversas promessas convidando-o a dormir.
De súbito, estranhou alguma coisa... Acordou. Teria ele ouvido algo? Houve algum sonho ruim que já não lembrava mais? 03:57, despertou e pegou os óculos. Parado na soleira do quarto, apoiou-se no batente da sua esquerda e passou a ponta dos dedos entre os cabelos - se algo ocorrer não fora dentro de sua casa. Decidiu subir novamente à laje. Pressionou a trinca, inutilmente enferrujada, com alguma força para abrir o pequeno portão. Encostou-o fechando. Pos-se apoiado no para peito e olhou a rua: estática à madrugada de segunda-feira, onírica.
Convencido de não ter havido nada de importante, precisava voltar a dormir, pois amanhã devia de ir à feira logo no primeiro horário. Dirigiu-se para descer as escadas e atravessar o portãozinho novamente, olhou antes, à sua direita embaixo do guarda-sol azul; o livro e o maço de cigarros. Abertos. Desconfortável, queria voltar logo para a cama mas já não podia... Ergueu as sobrancelhas como se comprasse a briga, mas cansou-se nos instantes seguintes; fosse o que fosse não o iria impedir de dormir, estava ficando louco. Pronto! Dormiria louco mesmo.
Desceu as escadas sem lembrar do portão, à caminho do quarto, em sua poltrona uma mulher de identidade taciturna por seu Nón lá cruzou as pernas, num gesto humilde, ofereceu sua educação anfitriã. O Sr Rodrigo, implacavelmente, sentou-se ao lado dela, no chão, pernas cruzadas. Agora via o rosto, era tão indiferente quanto qualquer outro:
- A senhora não tem sono como eu?
- Não quero agir de grosseria, mas veja bem; posso ajudá-la? Preciso dormir o quanto antes, se a senhora não se importa...
- Pode me responder, minha jovem?
- Eu não falo sua língua.
- Ora, tudo bem, isso não é problema hoje em dia.
- Eu sei disso, meu senhor. Bem, o que quero dizer é que mais uma dessas estrelas do teu céu, acabou de explodir há pouco. Estamos correndo sérios riscos, depois de alguns milhões de anos, se não soubermos lidar com isso, morreremos todos.
- Bem, eu não me importo tanto assim, posso pensar nisso amanhã, tudo bem? Esse é um problema gigantesco que não cabe a nossa resolução nesse curto período em que estamos vivos, eu e você. Deverias recolher-te também.
- Meu senhor! Se não consegues em vida resolver algo tão simples, como pode dizer-se feliz, amado ou justo?

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